O hino de protesto “Killing in the Name” ecoou com força na noite desta sexta-feira (13) no Lollapalooza Chile, mas não da forma tradicional. Durante a apresentação de Tom Morello, o público assumiu os vocais da canção do Rage Against the Machine, transformando o show no palco Alternative em um ato de catarse coletiva e resistência política.
A performance no Parque O’Higgins, em Santiago, foi um prato cheio para os fãs da banda dos anos 1990. Morello desfilou um medley instrumental com riffs de clássicos como “Bombtrack”, “Know Your Enemy”, “Bulls on Parade” e “Guerilla Radio”, demonstrando a destreza técnica e o uso inovador do pedal whammy que o consagraram como um dos guitarristas mais influentes de sua geração.
O tom político, marca registrada de sua trajetória, foi estabelecido antes mesmo de sua entrada oficial. O sistema de som do festival reproduziu “Manifiesto”, canção-testamento do artista chileno Víctor Jara (1932-1973), que silenciou e emocionou a plateia. O guitarrista, que pela manhã visitou os túmulos de Jara e do ex-presidente Salvador Allende (1908-1973), cumpriu a promessa de dedicar toda a sua apresentação à memória do músico local.
Jara foi um professor, poeta e cantor, figura central do movimento Nueva Canción Chilena e do governo de Allende. Logo após o golpe militar liderado por Augusto Pinochet (1915-2006) em 1973, Jara foi preso e brutalmente torturado. O artista foi fuzilado com dezenas de tiros e seu corpo foi abandonado em uma favela de Santiago, tornando-se um símbolo mundial de resistência.
O ativismo de Morello conectou o passado histórico ao cenário atual do país. Com a mensagem “No al fascismo” (“Não ao fascismo”) escrita no verso de sua guitarra, ele incitou o público: “Alguém aqui ama rock and roll e odeia fascistas?”. A resposta foi imediata, com os presentes entoando em coro o grito de protesto “Chúpalo, Kast!” (“Chupa, Kast!”).
A manifestação é uma reação direta à posse de José Antonio Kast, que assumiu a presidência do Chile em 11 de março de 2026, sucedendo o político de esquerda Gabriel Boric. Kast representa uma guinada à ultradireita no país e, em suas primeiras horas de governo, ordenou a construção de “barreiras físicas” nas fronteiras para combater a imigração irregular, sendo classificado por opositores como o líder mais extremista desde o fim da ditadura de Pinochet.
Em meio ao peso político, houve espaço para a emoção. Um dos momentos mais tocantes da noite ocorreu quando a banda de apoio tocou “Like a Stone”, clássico do Audioslave. Com os vocais assumidos por um dos músicos do grupo, a canção foi acompanhada em coro pelo público em um tributo ao icônico vocalista Chris Cornell (1964-2017), ex-parceiro de Morello no supergrupo.
O repertório também priorizou o catálogo solo recente do artista, com faixas extraídas dos álbuns “Comandante” e “The Atlas Underground”, mostrando que seu legado vai além das bandas que o consagraram.
O setlist ainda incluiu releituras carregadas de simbolismo social. Morello interpretou “The Ghost of Tom Joad”, composição de Bruce Springsteen, e “Power to the People”, de John Lennon, que também foi dedicada a Víctor Jara.
Para o encerramento, Morello surpreendeu com uma versão pesada de “Rock and Roll All Nite”, clássico do Kiss. Como ato final, enquanto o guitarrista deixava o palco com o punho esquerdo erguido, os alto-falantes tocaram “Venceremos”, hino da Unidade Popular que apoiou Allende, selando a apresentação com uma última mensagem de resistência política.
A performance de Tom Morello é uma exclusividade da edição chilena do Lollapalooza, que ocorre até domingo (15) e compartilha headliners como Sabrina Carpenter, Deftones, Tyler, The Creator e Lorde com os vizinhos Argentina, que abriga o festival também neste fim de semana, e Brasil, onde o evento desembarca de 20 a 22 de março, no autódromo de Interlagos, em São Paulo.



