O baiano Edson Gomes foi o responsável por encerrar a programação do palco Flying Fish nesta sexta-feira (20), durante a abertura da 13ª edição do Lollapalooza Brasil. No autódromo de Interlagos, em São Paulo, o maior nome do reggae raiz nacional mobilizou uma plateia que, embora reduzida em número, demonstrou reverência absoluta à sua trajetória de mais de cinco décadas.
A presença de Gomes no festival ocorreu em meio a um cenário de divisão entre parte de sua base de admiradores. Nos últimos anos, o músico tem ocupado espaço no noticiário por declarações que contrastam com o forte teor social de suas letras. No entanto, durante a performance em Interlagos, o clima foi de celebração, com o público acompanhando de forma vibrante os hinos de resistência que definiram o gênero no país desde os anos 1970.
Entre as falas que geraram controvérsia recentemente, destaca-se um discurso feito em fevereiro deste ano, quando Gomes interrompeu um show para afirmar que “nossos filhos são caçados pelos comunistas para que se tornem simplesmente uma presa”. O artista também causou mal-estar ao classificar o Dia da Consciência Negra como uma “distração” e ao rotular sindicalistas que utilizam suas músicas como “canalhas” por não o contratarem para apresentações profissionais.
Outro ponto de atrito recorrente em suas manifestações públicas envolve os programas de transferência de renda. Em participações em podcasts e palcos pelo país, o cantor associou o Bolsa Família a uma “chantagem política” para manter o povo dependente. Essas opiniões chegaram a ser criticadas pela deputada Olívia Santana (PCdoB), que apontou um abismo entre o Edson Gomes que compõe críticas severas ao sistema e o cidadão de posicionamentos conservadores.
No palco do Lollapalooza, o veterano de 70 anos optou pela contenção discursiva. Ele evitou falas inflamadas e limitou suas interações a agradecimentos breves e ao tradicional bordão “Come on, baby”. A estratégia permitiu que a densidade das letras de protesto conduzisse o ritmo da noite, deixando que temas como violência urbana e racismo estrutural falassem por si, sem as interrupções ideológicas vistas em performances recentes.
O aspecto visual do espetáculo chamou a atenção pelas ilustrações exibidas no telão, criadas por inteligência artificial. As imagens representavam Gomes em um trono ao lado do Leão de Judá e, em outro momento, segurando um livro com a inscrição “Bíblia com Harpa”. Essa estética reforçou a dualidade entre a simbologia rastafari e a mentalidade protestante que o cantor tem equilibrado em suas manifestações artísticas mais atuais.
Acompanhado por uma banda de alta competência técnica e um trio de sopros coreografado, Edson Gomes passou a maior parte do setlist sentado. Apesar dos movimentos limitados, o cantor exibiu um vigor vocal que impressionou pela afinação e entrega emocional. A experiência acumulada desde seus primeiros festivais estudantis em Cachoeira, no Recôncavo Baiano, traduziu-se em uma segurança cênica que preencheu o espaço do palco.

O repertório foi uma sucessão de faixas emblemáticas, iniciado com “Guerreiro do Terceiro Mundo”. Sucessos como “Perdido de Amor” e “Camelô” — esta última com trechos inteiros cantados apenas pela plateia — provaram a atemporalidade de sua obra. O ápice da apresentação ocorreu durante a execução de “Árvore”, momento em que os presentes aproveitaram o espaço na pista para dançar e criar um coro massivo que ecoou pelo setor.
A concorrência direta com a estrela pop Sabrina Carpenter, que se apresentava simultaneamente no palco principal, acabou esvaziando a área do Flying Fish. Entretanto, os fãs que optaram pelo reggae formaram um grupo fiel, transformando a baixa densidade de público em uma experiência de conforto e fluidez, permitindo que a audiência aproveitasse o show sem os apertos comuns em outras áreas do festival.
Ao fim da apresentação, Gomes reafirmou suas convicções em conversa com a imprensa nos bastidores. Questionado pelo Estadão sobre as mensagens que leva ao público, o cantor afirmou: “O reggae clama pela justiça. Não queremos a igualdade social que eles têm. Queremos viver às nossas custas e não de Bolsa Família”. A declaração confirmou que, embora silencioso no palco, o artista mantém sua postura crítica ao sistema de auxílios governamentais.
O primeiro dia desta 13ª edição do festival em Interlagos entregou um lineup que contemplou desde o pop de Sabrina Carpenter e Doechii até o rock visceral de Deftones e Interpol. A participação de Gomes e a celebração de 30 anos de carreira de Negra Li garantiram a representatividade nacional no dia de abertura do evento.
A programação continua neste sábado (21), com destaque para o fenômeno pop Chappell Roan e o set eletrônico de Skrillex. O público que frequenta o autódromo também aguarda as performances de Lewis Capaldi, Cypress Hill, Turnstile e o som psicodélico do King Gizzard & the Lizard Wizard, mantendo a diversidade de gêneros que é marca do festival.
No domingo (22), o encerramento do Lollapalooza fica sob a responsabilidade de Lorde e Tyler, the creator. O último dia de festa em Interlagos contará ainda com apresentações de Marina Sena, BadBadNotGood, Omar Apollo e a banda de rock alternativo Fontaines D.C., fechando o ciclo de três dias de música intensa na zona sul de São Paulo.
Setlist de Edson Gomes no Lollapalooza 2026
- Guerreiro do Terceiro Mundo
- Perdido de Amor
- Camelô
- Barrados
- Campo de Batalha
- Sangue Azul
- Fogo na Babilônia
- Malandrinha
- Ovelha
- Árvore
- Lute
- Criminalidade
- Meus Direitos



