Doechii concretizou sua primeira apresentação em solo brasileiro na noite desta sexta-feira (20), ocupando o palco Budweiser durante a abertura da 13ª edição do Lollapalooza Brasil. A rapper norte-americana, que subiu ao palco pouco após o pôr do sol, apresentou um espetáculo de 45 minutos que aliou a crueza das rimas da Flórida a uma composição cênica sofisticada no autódromo de Interlagos.
O envolvimento com a sonoridade brasileira foi um dos pilares da apresentação, ficando evidente quando a rapper inseriu batidas de funk carioca em seu set. Antes da faixa “Alter Ego”, samples de clássicos como “Tira e Bota”, da Furacão 2000, ecoaram pelo gramado de Interlagos. A resposta do público foi imediata, criando uma percussão visual e sonora com os milhares de leques que batiam em sincronia a cada comando da artista, que arriscou um “Brasil! E aí?” em português.
A performance física foi outro destaque central, com Doechii e seu corpo de baile executando coreografias complexas e sincronizadas durante todo o tempo. A precisão dos movimentos, que mesclavam dança contemporânea e atitude das pistas, manteve o fôlego da apresentação em alta, provando que a artista domina a fusão entre música e expressão corporal. O show foi estruturado para manter uma intensidade constante, sem pausas para o público descansar.
Aos 27 anos, a artista norte-americana vive o auge de sua visibilidade global. Recentemente, Doechii consolidou seu espaço na prateleira de elite da música ao vencer o Grammy de melhor álbum de rap em 2025 com a mixtape “Alligator Bites Never Heal”. O reconhecimento da Academia serviu como um cartão de visitas para o público paulistano, que acompanhou de perto a técnica vocal e os flows variados da nova estrela do hip-hop.
A vinda ao Brasil teve um caráter de reparação para os fãs que acompanham sua trajetória. Após dois cancelamentos em 2024, incluindo a ausência no Afropunk, a presença da rapper era um dos compromissos mais celebrados desta edição. Doechii demonstrou ter estudado a audiência local, mergulhando na cultura da cidade antes mesmo de pisar no festival.
Na noite anterior ao show, a rapper foi vista na festa Batekoo, no centro de São Paulo, onde interagiu com expoentes do gênero no país, como Ebony e Duquesa. Essa aproximação com a cena urbana brasileira transpareceu no palco, onde a cantora pareceu à vontade para conduzir uma narrativa que ia além da execução de canções, funcionando como a anfitriã de uma experiência mística e urbana para as dezenas de milhares de presentes.
A estética do palco foi um dos diferenciais da apresentação, fugindo das estruturas convencionais do hip-hop de arena. Com a utilização de tapetes, abajures e cortinas, Doechii criou um ambiente que remetia a um ritual íntimo. Essa cenografia serviu de suporte para a presença constante da personagem “Mr. Chi Chi Tarot”, uma cartomante cujas aparições nos telões guiavam a transição entre os blocos da performance.

Musicalmente, o show foi aberto com “Girl, Get Up”, parceria com SZA, estabelecendo de imediato o tom de entrega que marcaria o set. Doechii manteve o fôlego impecável em faixas como “Persuasive” e “Boiled Peanuts”, demonstrando domínio das variações de ritmo. A alternância entre o melódico e o agressivo prendeu a atenção da plateia em cada verso, reforçando a complexidade de sua produção atual.
Canções como “Anxiety” e “Nissan Altima” demonstraram a força da artista nas redes sociais e plataformas de vídeo, sendo recebidas com coros volumosos. A primeira, que utiliza o sample de Gotye, já possuía uma conexão prévia com a audiência brasileira por sua onipresença em conteúdos digitais. No palco, a faixa ganhou uma nova dimensão através da interpretação de Doechii, que ocupou todo o espaço disponível no palco Budweiser.
A sequência formada por “Spookie Coochie” e “Catfish” explorou o lado mais ácido de suas letras, abordando temas de empoderamento e vivências da indústria com ironia. A narrativa do espetáculo, costurada pelas inserções de vídeo, permitiu que a artista trocasse de figurinos — surgindo com estéticas que remetiam a figuras ciganas — sem perder a fluidez do roteiro, que manteve a plateia engajada do início ao fim.
O momento que antecedeu o encerramento do set principal foi dedicado a “Denial Is a River”. A música, que se tornou um marco em sua carreira após a performance no Tiny Desk, serviu para consolidar sua autoridade vocal e presença de palco. Foi o instante em que a rapper mais se conectou visualmente com os fãs, permitindo que a instrumentação ganhasse corpo antes de se despedir pela primeira vez do público paulistano.
Para o bis, a escolha foi “What It Is”, seu maior sucesso comercial, que trouxe uma atmosfera de celebração para o fechamento. Antes de deixar o palco, Doechii fez questão de reforçar o vínculo criado com o país através de uma frase curta e direta: “Não se esqueça de mim. Te amo”. O recado foi assimilado por uma plateia que permaneceu vibrante mesmo após o término da última música.
A performance de Doechii pavimentou o caminho para o restante da noite de sexta-feira, que ainda contou com o encerramento pop de Sabrina Carpenter. O primeiro dia da 13ª edição também foi marcado pela apresentação de Deftones e Interpol, além da histórica celebração de 30 anos de carreira de Negra Li e o reggae de Edson Gomes.
A programação do festival continua neste sábado (21), com o fenômeno Chappell Roan e o set eletrônico de Skrillex como destaques do lineup. No domingo (22), o encerramento ocorre com os shows de Lorde e Tyler, the Creator, fechando o ciclo de três dias de música intensa no autódromo.
Setlist da Doechii no Lollapalooza 2026
- Girl, Get Up
- Alter Ego
- Persuasive
- Boiled Peanuts
- Bullfrog
- Spookie Coochie
- Nosebleeds
- Crazy
- Anxiety
- Stressed
- Nissan Altima
- America Has a Problem (Freestyle)
- Swamp Bitches
- Catfish
- Denial Is a River
- What It Is



