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Veja como foram os desfiles das escolas de samba do Rio no Carnaval 2026

Doze escolas passaram pela Sapucaí em três noites na avenida; apuração acontece nesta quarta-feira (18)

Carro alegórico em desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, no sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro; neste Carnaval, agremiação teve o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”, em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) | 15.fev.2026/Divulgação
Carro alegórico em desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, no sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro; neste Carnaval, agremiação teve o enredo “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”, em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) | 15.fev.2026/Divulgação

O Carnaval de 2026 encerrou as apresentações do Grupo Especial na Marquês de Sapucaí após três noites de espetáculos que privilegiaram narrativas biográficas. Entre a noite de domingo (15) e a madrugada desta quarta-feira (18), 12 agremiações buscaram o título com enredos que homenagearam desde figuras políticas até ícones da música, literatura e das artes visuais. A divisão do cronograma em três dias permitiu que o público acompanhasse quatro escolas por noite em desfiles tecnicamente equilibrados.

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A passarela do samba serviu como palco para tributos a personalidades mortas recentemente, como a cantora Rita Lee (1947-2023) e a carnavalesca Rosa Magalhães (1947-2024). No campo da literatura, Carolina Maria de Jesus (1914-1977) foi o fio condutor de um desfile denso sobre a realidade social brasileira. Já a ancestralidade foi o foco da Portela, que resgatou a história do Príncipe Custódio (1869-1935), e da Mangueira, que celebrou o legado de Mestre Sacaca (1926-1999) no Amapá.

Celebridades de grande alcance popular reforçaram a visibilidade dos pavilhões na avenida. A influenciadora Virginia Fonseca estreou como rainha na Grande Rio em meio a uma forte escolta de segurança e repercussão nas redes sociais. Juliana Paes retornou à Viradouro para homenagear o mestre de bateria Ciça, enquanto Sabrina Sato desfilou na Vila Isabel com uma indumentária de 40 quilos que representava o colorido das obras de Heitor dos Prazeres (1898-1966).

A tecnologia e a inovação estética foram marcas registradas desta edição. A Portela utilizou um superdrone para simular o voo de um componente, enquanto a Vila Isabel inovou ao pedir que o público usasse as luzes dos celulares para criar uma atmosfera de ritual religioso. Outras escolas, como a Imperatriz Leopoldinense, investiram em alegorias de grandes proporções com movimentos robotizados e efeitos especiais de iluminação.

As baterias das escolas de samba mantiveram o alto padrão rítmico, com destaque para a Furiosa do Salgueiro, que introduziu um violino em suas paradinhas, e para a bateria da Beija-Flor, que enfrentou o desafio de desfilar pela primeira vez em 50 anos sem o intérprete Neguinho da Beija-Flor. O equilíbrio entre os quesitos de harmonia e evolução sugere que a disputa pelo campeonato será decidida por décimos pontuais na tabela dos jurados.

Questões sociais e políticas também permearam os desfiles. A Acadêmicos de Niterói levou a biografia do presidente Lula para a pista, gerando debates jurídicos e críticas satíricas a opositores. Na Mocidade, a proteção aos animais foi o mote para um desfile sem o uso de penas naturais, em consonância com a militância de Rita Lee. Já a Grande Rio utilizou o movimento manguebeat para discutir a fertilidade e a resistência cultural a partir dos manguezais.

O balanço final das apresentações coloca agremiações tradicionais no topo do favoritismo, especialmente Imperatriz, Mangueira, Beija-Flor e Viradouro, que cruzaram o portão final sob aclamação e gritos de “é campeã”. Falhas técnicas pontuais, como problemas na dispersão de alegorias da Mangueira e buracos na evolução da Portela e do Salgueiro, são os principais pontos de atenção que podem interferir no resultado final.

A leitura das notas que definirá a classificação oficial e a grande campeã de 2026 será realizada nesta quarta-feira (18), a partir das 16h, na praça da Apoteose. As seis agremiações com as maiores pontuações garantem vaga no desfile das campeãs, agendado para o sábado (21).

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Domingo (15 de fevereiro)

Acadêmicos de Niterói

A Acadêmicos de Niterói abriu a primeira noite do Grupo Especial com o samba-enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. A escola contou a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde o sertão pernambucano até sua ascensão política. O desfile gerou polêmica com críticas diretas a Jair Bolsonaro, representado como o palhaço Bozo em uma cela, o que provocou reações imediatas nas arquibancadas com slogans políticos.

Lula acompanhou a apresentação de um camarote e desceu à pista para saudar o casal de mestre-sala e porta-bandeira. O abre-alas representou o agreste pernambucano, enquanto uma das alas mais simbólicas trouxe componentes segurando diplomas acadêmicos, em alusão ao acesso da população pobre ao ensino superior. A comissão de frente recriou a subida da rampa do Palácio do Planalto ao lado de representantes da sociedade civil.

Apesar da empolgação inicial, a agremiação enfrentou dificuldades para sustentar o canto do público durante todo o logradouro. O samba, que trazia o refrão “Olê, olê, olá, Lula”, oscilou em harmonia em alguns setores. Plasticamente, a escola utilizou tons terrosos e cactos para o início do cortejo, evoluindo para uma estética mais industrial ao narrar os tempos de metalurgia em São Bernardo do Campo.

No quesito evolução, a Acadêmicos de Niterói passou pela avenida sem cometer erros graves, encerrando sua jornada dentro do tempo máximo de 80 minutos. Contudo, problemas na saída de um dos carros alegóricos causaram um pequeno atraso que refletiu no início do desfile da escola seguinte. A estreia da agremiação na elite buscou unir o manifesto político ao tradicional rigor estético do carnaval carioca.

Imperatriz Leopoldinense

A Imperatriz Leopoldinense apresentou o enredo “Camaleônico” em homenagem ao cantor Ney Matogrosso. O carnavalesco Leandro Vieira focou nas subversões estéticas do artista, desde os Secos & Molhados até sua fase solo transgressora. Ney Matogrosso foi o destaque do último carro alegórico, sendo ovacionado pelo público após declarar que a Sapucaí é “um palco 10 mil vezes maior”.

O visual da escola de Ramos foi um dos mais elogiados, destacando-se o imponente lobisomem robotizado de 20 metros de altura, inspirado no clássico “O Vira”. A comissão de frente utilizou truques de mágica para representar “clones” do cantor, refletindo suas diversas personas. A indumentária abusou de cores vibrantes, cristais e moedas douradas, percorrendo as fases de “O Homem Neandertal” e “Bandido”.

À frente da bateria, a cantora Iza surgiu fantasiada de serpente em tons de vermelho, utilizando um adereço de cabeça que emitia fumaça. O samba-enredo sustentou o desfile com vigor, permitindo que os componentes cantassem com força do início ao fim. A agremiação manteve uma evolução constante, apesar de uma breve interrupção em uma das alegorias que teve dificuldades para fazer a curva sob o viaduto.

Tecnicamente, a Imperatriz Leopoldinense se consolidou como uma forte candidata ao título. O acabamento das fantasias e a sofisticação dos carros mostraram o domínio estético da escola na avenida. A agremiação encerrou sua participação com o coração a mil, como definiu o próprio Ney, deixando uma marca de luxo e política cultural na primeira noite do Grupo Especial.

Portela

A Portela entrou na avenida com o enredo “O Mistério do Príncipe do Bará – A oração do negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande”. A maior campeã do carnaval carioca resgatou a história de Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio (1869-1935), líder religioso negro do Rio Grande do Sul. A tradicional águia branca retornou ao seu formato clássico de voo, emocionando a torcida de Madureira.

O desfile foi marcado por uma inovação na comissão de frente: um componente sobrevoou a avenida em cima de um grande drone iluminado, representando a redenção do Negrinho do Pastoreio. O uso de tecnologia seguiu com luzes de LED nas fantasias das baianas, que ganharam destaque quando as luzes do sambódromo foram apagadas. A proposta visual uniu a ancestralidade afro-gaúcha a efeitos contemporâneos de impacto.

No entanto, a agremiação sofreu com graves problemas operacionais. Um atraso na dispersão da escola anterior fez com que a Portela começasse seu desfile com 40 minutos de atraso. Durante a evolução, um buraco se abriu diante da última alegoria, forçando a bateria e os componentes a correrem no final para não estourar o limite de 80 minutos, cruzando a linha final sob forte tensão.

Apesar das falhas de pista que podem custar décimos preciosos em evolução, o canto da comunidade e o luxo das alegorias foram elogiados. O samba-enredo, focado no batuque gaúcho, foi conduzido com garra, destacando o papel do príncipe na difusão das religiões de matriz africana. A Portela encerrou sua jornada buscando mitigar os problemas técnicos com a força de sua história e de seu enredo inovador.

Mangueira

A Estação Primeira de Mangueira fechou a primeira noite com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”. A homenagem a Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca (1926-1999), trouxe para a Sapucaí os saberes ancestrais do Amapá. A escola utilizou onças que brilhavam no escuro e carros que exalavam cheiro de ervas medicinais, criando uma experiência sensorial na pista.

A rainha de bateria Evelyn Bastos desfilou com o cachimbo de Preto Velho, e os tambores da verde e rosa incorporaram o marabaixo ao samba. O desfile percorreu os rituais indígenas do Turé e celebrou o conhecimento das raízes amazônicas no tratamento comunitário. Uma escultura monumental de Sacaca como “Doutor da Floresta” impressionou pelo acabamento e pelas cores vibrantes de suas alas.

O canto forte da comunidade e as “paradinhas” rítmicas sustentaram a harmonia até o amanhecer de segunda-feira. A Mangueira flutuou na avenida com figurinos luxuosos que conectavam povos quilombolas e ribeirinhos. A conexão entre o Amapá e o Rio foi selada com a presença da família do mestre, que desfilou visivelmente emocionada sob os aplausos das arquibancadas.

Ao final do desfile, a última alegoria bateu na base de um monumento na praça da Apoteose, o que causou dificuldades na dispersão. O incidente exigiu que componentes desmontassem parte do carro para retirá-lo da pista, mas a escola conseguiu encerrar dentro do prazo. A força do pavilhão e o desfile tecnicamente robusto credenciaram a Mangueira como uma das favoritas após o primeiro dia.

Segunda-feira (16 de fevereiro)

Mocidade Independente de Padre Miguel

A Mocidade Independente de Padre Miguel abriu o segundo dia com o enredo “Rita Lee, a padroeira da liberdade”. A escola celebrou o legado de Rita Lee (1947-2023) com um desfile explosivo em cores e referências à estética psicodélica dos anos 70. Por um pedido da família da artista, não foram usadas penas de animais nas fantasias, respeitando o ativismo de Rita pela causa animal.

O abre-alas trouxe o rosto da cantora e balões que se ergueram a 35 metros de altura. O roteiro da escola abordou o tropicalismo, a cultura hippie e a resistência à ditadura militar, época em que a artista foi detida. Roberto de Carvalho, viúvo de Rita, desfilou no último carro alegórico, chamado “Lança Perfume”, cercado por memórias visuais que remetiam ao auge da carreira da esposa.

A bateria protagonizou um momento de impacto ao soltar mil balões em formato de coração durante a apresentação. A rainha de bateria Fabíola Andrade representou Afrodite, reforçando a mensagem de amor e liberdade proposta pelo samba. Apesar da força plástica, o samba-enredo teve uma recepção mais contida do público em comparação a outros clássicos da escola de Padre Miguel.

Mesmo com um enredo denso em referências estéticas, a agremiação manteve uma evolução segura e compacta. A homenagem ao cão Orelha, símbolo da luta contra os maus-tratos animais, foi um dos destaques de um tripé da agremiação. A Mocidade encerrou seu desfile dentro do tempo, cumprindo o papel de reverenciar uma das maiores artistas da música brasileira com dignidade e coerência.

Beija-Flor de Nilópolis

A Beija-Flor de Nilópolis apresentou o enredo “Bembé”, celebrando o candomblé de rua de Santo Amaro, na Bahia. A escola de Nilópolis realizou um desfile luxuoso e tecnicamente impecável, reafirmando seu status de atual campeã. Pela primeira vez em 50 anos, o pavilhão desfilou sem Neguinho da Beija-Flor, com o samba sendo conduzido pela dupla Nino do Milênio e Jéssica Martin.

A comissão de frente apresentou pescadores carregando um barco que se erguia verticalmente para revelar a Mãe da Água. O visual da escola foi marcado por tons de azul e branco, evocando as divindades Oxum e Iemanjá. No último carro, sacerdotes do Terreiro do Mercado atravessaram a avenida com 2 mil litros de água de axé, abençoando a praça da Apoteose em um final de impacto.

O casal Selminha Sorriso e Claudinho, em seu 30º ano na agremiação, foi ovacionado pela precisão técnica na dança. O samba-enredo levantou a Sapucaí, sendo cantado com garra pela comunidade e saudado com gritos de “é campeã” em diversos setores. A organização das alas e o luxo das alegorias mostraram a Beija-Flor em plena forma competitiva.

Um incidente menor ocorreu quando um carro encostou em um viaduto na entrada da avenida, mas sem causar danos estruturais ou prejuízos de tempo. A escola encerrou sua jornada de 79 minutos com uma demonstração de força das tradições afro-brasileiras. O enredo sobre o Bembé do Mercado confirmou a Beija-Flor como uma das escolas a serem batidas na apuração desta quarta-feira.

Unidos do Viradouro

A Unidos do Viradouro emocionou o público com o enredo “Pra Cima, Ciça”, um tributo ao mestre de bateria Ciça, que completou 55 anos de carnaval. A agremiação de Niterói recriou a histórica cena de 2007 ao elevar toda a bateria ao topo de um carro alegórico. Juliana Paes retornou como rainha de bateria após 18 anos, desfilando ao lado do homenageado no alto da alegoria.

O abre-alas trouxe um leão dourado de 15 metros com movimentos de cabeça e rugidos robotizados. A comissão de frente utilizou truques de ilusionismo para mostrar o Mestre Ciça em diferentes pontos da pista, saudando os jurados. Uma ala de 50 mulheres fantasiadas de Luma de Oliveira recriou o figurino de 1998, utilizando uma coleira que estampava o nome de Ciça.

O espetáculo visual foi complementado por 12 mil lâmpadas de LED que iluminaram o carro que carregava os batuqueiros. Durante o desfile, a bateria realizou paradinhas que simulavam o batimento cardíaco, acompanhando o refrão do samba que dizia “Se for para morrer, que seja do samba”. A precisão técnica da evolução e o vigor do canto da comunidade colocaram a Viradouro no topo do favoritismo.

Ciça regeu a bateria e o público simultaneamente, em um momento de apoteose que levou os espectadores aos gritos de aclamação. A escola passou pela pista de forma irretocável, sem falhas de harmonia ou problemas operacionais graves. O desfile da Viradouro em 2026 foi uma celebração da própria essência do carnaval carioca e de seus maiores artistas populares.

Unidos da Tijuca

A Unidos da Tijuca encerrou a segunda noite com o enredo “Carolina Maria de Jesus”, em homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977). O desfile narrou a vida da autora de “Quarto de Despejo” desde os anos de sobrevivência na favela do Canindé até o reconhecimento literário internacional. A comissão de frente transformou um carrinho de catador em um quarto, simbolizando sua realidade social.

A escola apresentou fantasias que retratavam de forma expressiva a pobreza descrita na obra de Carolina, utilizando materiais que remetiam à crueza da vida na favela. O samba-enredo, composto por um grupo que incluiu Marcelo Adnet, foi sustentado com força pelo intérprete Marquinhos Art’samba e pelos componentes. Apesar da madrugada avançada e do público reduzido, a escola manteve uma evolução consistente.

Algumas alegorias apresentaram falhas de acabamento e iluminação parcialmente apagada em setores específicos, o que pode gerar descontos pontuais. No entanto, a força do enredo biográfico e a seriedade da apresentação foram elogiadas pela crítica. A Unidos da Tijuca focou em restituir o direito à memória de uma das mais importantes escritoras negras do Brasil.

O desfile foi encerrado com a última alegoria, chamada “Lendo um novo final – O palácio da eternidade para Carolina, a imortal”, trazendo mulheres consagradas da literatura brasileira contemporânea. A agremiação tijucana concluiu sua passagem dentro do tempo, apresentando um desfile tecnicamente digno e emocionalmente relevante para a reflexão sobre a desigualdade social no país.

Terça-feira (17 de fevereiro)

Paraíso do Tuiuti

A Paraíso do Tuiuti abriu a terceira noite com o enredo “Lonã Ifá Lukumí”, explorando as raízes africanas e cubanas da tradição de Ifá. A escola banhou a Sapucaí de branco e prata, cores ligadas aos orixás ancestrais, com um abre-alas monumental de 60 metros que trazia elefantes robotizados. O foco foi a conexão espiritual entre o Caribe e o Brasil através da Santería.

A rainha de bateria Mayara Lima foi um dos destaques de evolução, realizando uma coreografia integrada aos atabaques dos ritmistas. O intérprete Pixulé conduziu o samba com força, segurando o desfile durante as paradinhas da bateria. Alegorias trouxeram pirâmides douradas giratórias e referências à antiga civilização do Egito, mesclando tradição religiosa e visual impactante.

Apesar da abertura imponente, a escola enfrentou dificuldades no acabamento de seus últimos carros alegóricos, apresentando falhas visíveis na iluminação e na decoração. Integrantes da velha-guarda desfilaram como babalaôs, carregando bandeirolas de Cuba. A agremiação passou pela avenida em 77 minutos, demonstrando segurança no tempo, mas com ressalvas plásticas que podem comprometer a luta pelo topo da tabela.

O encerramento contou com a presença do pesquisador Nei Lopes no último carro, sendo saudado com respeito pelos estudiosos do carnaval. A Paraíso do Tuiuti cumpriu sua missão de abrir a última noite com um enredo culturalmente denso e informativo. O desfile foi uma demonstração de como o carnaval pode servir para a preservação de heranças filosóficas e religiosas.

Unidos de Vila Isabel

A Unidos de Vila Isabel realizou um dos desfiles mais aclamados da última noite com o enredo “Macumbembê, Samborembá: Sonhei Que Um Sambista Sonhou a África”. A homenagem ao multiartista Heitor dos Prazeres (1898-1966) coloriu a avenida com fantasias pintadas à mão, imitando as telas do pintor. O intérprete Tinga convocou o público a usar os celulares como velas, criando um efeito visual magnífico.

A rainha Sabrina Sato desfilou com uma indumentária de 40 quilos coberta de cristais, representando a aquarela das obras de Heitor. A comissão de frente resumiu a vida do artista, unindo suas rodas de samba à espiritualidade afro-brasileira. O samba-enredo foi cantado com força por toda a Sapucaí, sendo apontado por especialistas como uma das melhores composições do ano.

As alegorias apresentaram esculturas em movimento e um acabamento refinado, com destaque para o abre-alas em azul e dourado. Martinho da Vila, presidente de honra, desfilou em um pede passagem acompanhado por uma bisneta de Tia Ciata. A Vila Isabel manteve uma evolução irretocável, sem qualquer erro de harmonia, encerrando seu logradouro confortavelmente dentro do tempo regulamentar.

No último carro, a presença de Heitorzinho, filho do homenageado, coroou a apresentação que celebrou Heitor como um dos fundadores das escolas de samba. A agremiação deixou a pista sob aclamação popular, credenciando-se como uma forte concorrente ao título de 2026. A plástica assinada por Gabriel Haddad e Leonardo Bora confirmou o nível de competitividade da escola de Noel.

Grande Rio

A Acadêmicos do Grande Rio mergulhou no universo do manguebeat com o enredo “A Nação do Mangue”. O desfile começou com as luzes da pista apagadas para destacar os tons de roxo e vermelho que representavam a lama fértil do bioma. O abre-alas trouxe uma fauna estilizada com jacarés e caranguejos, integrando tecnologia e visual agressivo.

A estreia da influenciadora Virginia Fonseca como rainha de bateria foi marcada por polêmica e agitação. Cercada por 20 seguranças, ela enfrentou dificuldades com a fantasia e teve problemas na dispersão. Virginia usou um cristal no dente com o número 7, em apoio ao jogador Vini Jr., que sofreu racismo em uma partida na Europa no mesmo dia. A marca de cosméticos Wepink foi estampada nos macacões da equipe de força da escola.

Apesar do esforço rítmico, o samba-enredo não empolgou o público como em carnavais anteriores. Homenagens a Chico Science (1966-1997) e ao movimento Nação Zumbi foram espalhadas por alegorias que traziam antenas parabólicas e referências ao maracatu. A Grande Rio manteve um padrão de luxo exuberante, mas falhas na evolução devido ao tumulto em torno da rainha podem gerar descontos.

O desfile foi encerrado com o último carro trazendo Nanã, orixá da lama, reafirmando o conceito do enredo sobre a fertilidade dos manguezais. A agremiação de Caxias apresentou uma proposta moderna, mas a recepção fria do público ao samba e os percalços técnicos deixam a escola em uma posição de incerteza na tabela. O desfile foi uma vitrine de marketing e resistência cultural simultaneamente.

Salgueiro

O Acadêmicos do Salgueiro encerrou o carnaval carioca com uma homenagem à carnavalesca Rosa Magalhães (1947-2024). O enredo “A Delirante Jornada Carnavalesca…” transformou a Sapucaí em uma grande biblioteca de memórias da professora. A bateria Furiosa inovou ao incluir um violino entre seus instrumentos, em alusão à formação erudita de Rosa.

A rainha Viviane Araújo, vestida de pirata, subiu em uma alegoria em formato de navio, conduzindo os ritmistas com a energia que a consagrou como a mais longeva rainha do Grupo Especial. A comissão de frente foi tradicional, com dançarinos interagindo com livros que funcionavam como portais para os carnavais históricos da artista. O rosa dominou a paleta de cores do início ao fim do cortejo.

A escola enfrentou um pequeno problema de evolução, gerando um buraco no meio do desfile, mas conseguiu fechar o portão a tempo. O samba-enredo foi cantado com dedicação pelos componentes sob a condução de Igor Sorriso. O abre-alas trouxe referências a diversos títulos conquistados por Rosa Magalhães, celebrando sua estética barroca e brasilidade.

No encerramento, a homenageada foi coroada no último carro, em um momento de reverência que marcou o fim dos desfiles de 2026. O Salgueiro passou com dignidade e técnica, apesar do susto na evolução. A apuração que começa na tarde desta quarta-feira na praça da Apoteose decidirá se o tributo à maior vencedora da Sapucaí garantirá o décimo campeonato à agremiação.

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